A Imagem Corporal e a Marca da Doença no Corpo da Criança – Autor: Suzana Veloso

AUTOR

Suzana Veloso Cabral
Psicóloga e Psicomotricista, com especialização em Psicomotricidade pelo CRP MG e Educação Especial Inclusiva pela PUC MG.
Sócia titular e de honra da ABP.
Formação em Psicanálise pela Sociedade Psicanalítica de Minas Gerais.
Formação em Psicomotricidade Relacional.
Publicação de livros e artigos em livros sobre Psicomotricidade e palestras em Anais de Congressos Brasileiros e Internacionais de Psicomotricidade
Email: sucabral48@gmail.com
Facebook: https://www.facebook.com/SuzanaVelosoCabral/
Youtube: https://www.youtube.com/channel/UC_yemz0TCAURHk1JJye3p5Q

A IMAGEM CORPORAL E A MARCA DA DOENÇA NO CORPO DA CRIANÇA

A Prática Psicomotora acolhe crianças para atendimento clínico geralmente quando elas revelam dificuldades de organização corporal, distúrbios evolutivos que vão desde o aspecto cognitivo até o aspecto da organização do esquema corporal, espaço e tempo. Também as dificuldades que se ligam à imagem inconsciente do corpo são prevalentes para a psicomotricidade e se ligam aos aspectos de inibição ou de agitação dos distúrbios psicomotores.

Em alguns casos lidamos também com diversas deficiências que podem se beneficiar com a relação psicomotora estruturante e que permite levar as pessoas com necessidades especiais ao encontro das possibilidades de se situar como sujeito desejante em sua vida e nos encontros com os outros.

Geralmente é à pulsão de vida que associamos a motricidade em relação, como JOLIVET bem definiu a psicomotricidade em 1972.
Mas, o que dizer quando a doença se abate sobre a criança nos diversos períodos evolutivos?

Como será a vivência que se marcará em seu corpo e na imagem inconsciente do corpo, sobretudo nos casos de hospitalização em enfermaria onde há também uma separação das figuras de referência afetiva que constituem a família?

No primeiro congresso de Psicomotricidade da Sociedade Brasileira de Psicomotricidade, em 1982, no Rio de Janeiro, foi apresentado em uma mesa redonda, um trabalho sobre o Corpo Doente, baseado na prática com as crianças internadas no Hospital de Base do IPSEMG, dos servidores estaduais de Minas Gerais.

Este presente artigo busca relatar o que ocorre quando se instaura uma ferida no corpo real, uma doença somática diagnosticada pelos pediatras e que deve ser tratada com procedimentos médicos, mas que não pode deixar de lado o que ocorre com o sujeito e com suas relações afetivas e, sobretudo, com sua imagem inconsciente do corpo.

Os exemplos da clínica, desde os mais antigos daquela época de trabalho no hospital até um atendimento bem recente que está ainda em processo, ilustrarão os aspectos psíquicos e relacionais ligados ao corpo e à imagem inconsciente do corpo nos diversos casos abordados.

A imagem inconsciente do corpo é um dos elementos básicos conceituais da Psicomotricidade e se liga ao corpo próprio e ao esquema corporal e é o foco da relação psicomotora, quando se tem um olhar que abarca as fantasias e desejos inconscientes presentes em todos nossos atos e vivências.

Essa imagem se amarra ao esquema corporal e, segundo DOLTO (1984), é a síntese viva de nossa história desejante e se marca psiquicamente por meio de nossas percepções sutis (olhar, voz, toque e com-tato estabelecido num corpo a corpo menos direto, por exemplo), em traços que são algo como significantes primordiais. Estes serão registrados a nível psíquico, ainda como pré-linguagem, pré-simbólicos, e serão re-contextualizados no après-coup.

Quando tudo corre bem no desenvolvimento, o narcisismo fundamental, primário e secundário criarão as amarras do corpo ao desejo que se atrela ao vivido no diálogo tônico-cinético, desde o início da vida, e a imagem inconsciente do corpo permitirá alavancar as possibilidades funcionais do esquema corporal, com uma vivência de progressiva autonomia psicomotora e de conquista do próprio Eu.

Também as castrações simbolígenas, dadas em cada um dos níveis evolutivos pelos quais passa a história do sujeito e suas vicissitudes desejantes, serão parte importante daquilo que se registra nessa imagem inconsciente do corpo.

Naquela comunicação feita no primeiro Congresso da Sociedade Brasileira de Psicomotricidade, já há mais de 20 anos, foi demonstrado que a criança hospitalizada vive uma situação de stress e, mais que isso, de angústia, que se liga, se manifesta e se traduz em suas vivências corporais, levando-a a inibição ou à agitação psicomotora defensiva.

Considera-se que estes dois pólos reativos são uma espécie de pré-defesas psíquicas, como nos diz KESTEMBERG (apud CABRAL 2001, p. 292), em sua comunicação que considera o corpo como um mensageiro de idéias e emoções que ultrapassam pensamentos expressos em palavras. Essa autora aponta que as descargas motoras implicam numa continuidade de movimentos e impulsos na qual se baseiam mecanismos de defesa como o deslocamento, a transformação da passividade em atividade, o acting-out, a identificação com o agressor. Já as inibições corporais são o equivalente e o modelo motor de outros mecanismos defensivos tais como a formação reativa, a negação, o isolamento, a repressão e a intelectualização.
Assim, toda a estrutura psíquica do sujeito é colocada em questão nos momentos traumáticos de internação: seus afetos, sua imagem inconsciente do corpo, suas ações em termos de vivido psicomotor e mesmo suas defesas psíquicas, mesmo que não sejam de imediato simbolizadas.

Na doença, os núcleos inconscientes ligados às fantasias de morte e às pulsões agressivas se intensificam e são revividos de modo manifesto. A projeção destas, sob forma de ameaças e perseguição, faz com que além da dor, os próprios cuidados médicos e de enfermagem tenham conotações de machucados e perigos. E, realmente, os procedimentos médicos algumas vezes são uma verdadeira intrusão do corpo próprio.

No caso de hospitalizações, a angústia de separação da família e, sobretudo, da mãe, também salta para o primeiro plano com choros, gritos e súplicas: “cadê mamãe?” – logo no primeiro momento.
Algumas crianças passam, defensivamente, para a hiperatividade, correndo nos corredores, num percurso aparentemente sem sentido, não simbolizado, mas, talvez, embusca da mãe, o que seria uma decodificação possível utilizando-se uma leitura da relação psicomotora.

A imagem inconsciente do corpo das crianças doentes internadas é perpassada pela aflição, pela insegurança e já não mais se traduz pela fórmula lapidar sugerida por DOLTO, quando ela define imagem: “identité, ma maman m’aime e ge” (1) – tomado como Je, Eu, em francês – (1987, p.13). Esta imagem que referenda a existência do sujeito/pré-sujeito em seu corpo, é substrato da relação com o outro, fica faltosa e manca (claudicante, se posso dizer assim, num jogo de palavras com manque=falta em francês), devido ao sofrimento real e à ausência materna.

(1) identidade, minha mamãe me ama e Eu.

Essa ausência do referencial materno, sobretudo no caso de internação em enfermaria deixa uma ferida psíquica hiante que é invadida pela angústia persecutória, no sentido kleiniano do termo, e se descarrega, em primeiro lugar, na motricidade e na agitação, como já vimos.

Este é, na maioria das vezes, o primeiro movimento defensivo feito pela criança internada que também é acompanhado por choro tempestuoso e ininterrupto.

Em muitas crianças essa fase é abrandada aos poucos, mas persistem uma certa irritabilidade e dispersão de atenção, que dificultam a criação de novos vínculos de apego com o pessoal do hospital, que nem sempre está atento aos aspectos afetivos presentes nas correrias e fugas da enfermaria.

Outras crianças logo se bloqueiam e caem numa apatia em que a própria mímica facial perde sua expressividade e não revela nada dos sentimentos, nem mesmo do sofrimento que seria evidenciado em situações menos penosas. O rosto torna-se uma máscara atônica e fixa em que não reconhecemos o élan vital característico da infância.

A intervenção do psicólogo e o olhar do psicomotricista atento à relação, no caso da equipe no hospital do IPSEMG – Hospital de Previdência do Estado de Minas Gerais, em Belo Horizonte –, foi um recurso muito interessante para acolher as crianças doentes hospitalizadas que sofriam no seu corpo real e na sua vivência e estruturação da imagem inconsciente do corpo.

O atendimento no hospital a essas crianças doentes deve possibilitar, em sessões de psicoterapia, privilegiando o olhar e a escuta da relação psicomotora, a tradução de seu sofrimento e medo e, também, o restabelecimento de uma imagem inconsciente do corpo mais ligada à saúde, re-narcisando o corpo e o Eu que se abateu diante da dor e do temor de abandono pelas pessoas queridas.
Criar um vínculo transferencial faz parte do atendimento psicoterápico no hospital, feito através do jogo espontâneo e livre na sala de terapia, ou mesmo nos corredores e enfermarias.
O setting lúdico é importante, pois estamos diante da angústia e ela se expressa no brincar e como nos diz WINNICOTT:
"A angústia é sempre um fator na brincadeira infantil e, freqüentemente, um fator dominante" (1982, p.162).

Além disso, brincar por si só é terapêutico e, com o enquadre de uma escuta e um olhar transferencial, pode-se conseguir uma abordagem dos conflitos.
"A psicoterapia se efetua na sobreposição de duas áreas do brincar, a do paciente e a do terapeuta (WINNICOTT, 1975, p.80)”.

Trazer essa possibilidade do brincar terapêutico para dentro de uma unidade de Pediatria de um hospital foi um requisito da equipe hospitalar, quando os médicos, enfermeiros e auxiliares de enfermagem, atendentes e assistentes sociais, reconheceram que os aspectos afetivos deviam ser considerados na internação de crianças e, então, convidaram psicólogos, estagiários de psicologia e psicomotricistas para fazer parte do atendimento transdiciplinar durante a hospitalização.

Além disso, as cargas inomináveis de angústia, presentes na vivência hospitalar, necessitam, também de um reforço, no plano da realidade que pode apresentar-se menos penosa em alguns momentos, trazendo novas cargas de libido e de pulsão de vida e, para tal, a escola anexa ao setor de pediatria foi um elemento importante.

Foi criado, nessa época, pela equipe transdiciplinar do hospital um livrinho de preparação e acompanhamento da internação que se intitula “A turma do pinta-o-sete contra o bando estraga-tudo”. A turma do pinta-o-sete era constituída pelos heróis / crianças lutando pela saúde e o bando estraga-tudo, os vilões personificando as doenças e acidentes de vários tipos que atingem as crianças.

Tal livro, utilizado na escolinha e colorido por cada criança que quisesse e pudesse fazê-lo, ajudava a sua compreensão da rotina e da realidade hospitalar, trazendo a linguagem da fantasia de uma luta entre a saúde e a doença, personificando os problemas que a criança deveria enfrentar em seus dias no hospital.


A dinâmica existente entre o serviço de atendimento psicológico no hospital e as professoras da escola que recebia as crianças internadas revela a articulação entre saúde e psicomotricidade, nessa experiência ocorrida durante alguns anos na Unidade de Pediatria do IPSEMG.

O trabalho, além do atendimento pontual clínico, realizado, às vezes no corredor pelo psicólogo, ou pelos estagiários, quando havia uma ocorrência que necessitasse atendimento imediato e, na sala de terapia nos grupos previstos, era complementado pelo trabalho das professoras que, na escolinha, ajudavam as crianças a recuperar as matérias escolares, mas também atuavam como recreadoras de uma espécie de centro de convivência em que criavam jogos psicomotores na sala de aula, orientados pelo serviço de Psicologia e Psicomotricidade.

O corpo tolhido num ambiente asséptico podia também se beneficiar de momentos livres de atividades psicomotoras ao ar livre, no parque municipal situado imediatamente na frente do Hospital.
Os jogos ocorriam em brinquedos de vários tipos: balanços, carrossel, roda-gigante, nesse parque municipal para onde levávamos as crianças que podiam sair da enfermaria e se locomover.
A equipe que ia ao parque era composta pelo psicólogo, a professora e a atendente de enfermagem, todos acompanhantes das crianças nesses momentos.

Essa “fugida” do espaço de doença sempre foi re-narcisante para as crianças que reencontravam em meio à natureza e aos brinquedos do parque a possibilidade de recuperar certo prazer de vida.
O trabalho mostrou cenas comoventes em que as crianças puderam ser acolhidas e viver o processo de tratamento e cura, nos casos possíveis, com menos sofrimento e dor.

Segue o relato de alguns casos que se salientaram.

Um primeiro, de atendimento no corredor, feito por um estagiário. Tratava-se de um menino de dois anos, vindo do interior de Minas, internado na enfermaria, apenas com poucas visitas dos parentes.
Numa dessas visitas a mãe lhe trouxe um saquinho com algumas laranjas. Simbolicamente, este saquinho tornou-se o objeto substituto da presença da mãe; por vários dias, a criança o agarrava com a mão fechada com força, postada na entrada da enfermaria, como à espera do retorno mágico da mãe. Ninguém conseguia tirar de suas mãos este símbolo carregado de intensa emoção.
Uma abordagem afetiva e a verbalização do que ocorria – “essas laranjas devem ser ótimas, pois elas te lembram que a mamãe veio te ver no hospital e mostram que ela continua a gostar de você, mesmo que não possa estar aqui contigo todo o tempo” – ou seja, com a pontuação do vivido pela criança, por parte desse estagiário, algo se transformou.

A criança apática até então, acabou chorando, mas pôde ser consolada no colo pelo psicólogo, numa verdadeira contenção psicomotora e, aos poucos, estabeleceu-se um vínculo terapêutico que podia remeter ao laço afetivo com a mãe /criança. Depois de dois dias desse atendimento, a criança acabou numa sessão “de corredor”, abrindo seu saquinho e oferecendo uma laranja ao estagiário, sendo que os dois a descascaram e chuparam juntos.Com esta vivência o menino abandonou seu “posto de fiscal do corredor”, e começou a brincar com as outras crianças, na sala de terapia, na escolinha e nos passeios ao parque municipal.

Outra cena que foi traumática, no início, mas que permitiu a preservação da imagem inconsciente do corpo ocorreu com a intervenção de outro estagiário.
Havia um menino de 12 anos com uma queimadura enorme na perna e que o cirurgião plástico tentou recompor com um enxerto de pele. Não houve sucesso e a equipe médica decidiu por uma cirurgia de implante vivo, que ocorreria em várias etapas: cortar um tecido do abdome da criança, criando uma espécie de “salsicha de tecido vivo e vascularizado”, que seria, a seguir, costurado no braço e, numa terceira etapa, na perna, para a reconstituição da grande extensão de tecido lesado.

Tudo bem! Era uma técnica perfeita do ponto de vista cirúrgico, mas os médicos esqueceram-se de falar com o sujeito que se submeteria a ela, o que estava para acontecer com ele. Não avisaram nem mesmo à enfermagem e muito menos à equipe de psicólogos.
Resultado: a criança acordou da anestesia e voltou da cirurgia, para espanto de todos, com uma “salsicha na barriga” inexplicável.
Gritos, choros, crise de agressividade por parte do paciente e falatório em tom surdo, de cochicho, por parte da enfermagem.

Foi a intervenção do psicólogo que pode resolver o impasse criado. O estagiário conversou com a criança e disse que pediria ao médico para que lhe explicasse o que estava ocorrendo.
Voltando do contato com o cirurgião plástico, clareou para o menino o que estava havendo e lhe propôs, num jogo, seguir com um boneco de plásticos os passos das intervenções a que se submeteria. Juntos, cortaram uma faixa na barriga do boneco, e reproduziram a situação em que ele se encontrava, no momento. Nos outros dias, criaram os passos seguintes, colando a faixa da barriga ao braço do lado oposto à perna que necessitaria do enxerto. Depois de solidificada a “cirurgia”, com a cola seca, passaram à última etapa de colar a faixa do braço, cortando o extremo ligado à barriga, e o colando, então, à perna.

Foi feito um trabalho que permitiu à criança vivenciar o sofrimento e as alterações cirúrgicas de seu esquema corporal, podendo resguardar sua imagem inconsciente do corpo perturbada na primeira cirurgia, permitindo-lhe suportar, inclusive a paralisação forçada por algumas semanas, enquanto os processos de cicatrização prosseguiam, certificando-se que não haveria rejeição do enxerto,.

O último caso que relatarei foi atendido pela Psicomotricista no hospital.

Tratava-se de um menino com câncer de pele que já se internara em vários hospitais, anteriormente, para remoção de vários tumores, inclusive nos olhos, o que o deixou sem visão.
Naquela época apresentava tumores na língua e nos ouvidos, trazendo-lhe dificuldade de comunicação com os outros. Seu rosto ficara deformado e ele parecia um verdadeiro “monstro”!
A solução adotada pela equipe hospitalar para não interferir com as outras crianças fora o quarto de isolamento, usado para casos de doenças infecto-contagiosas. Ali, ele ficava, isolado do convívio humano, com apenas um radinho de pilha para distração.

O primeiro contato com ele foi de “cortar o coração”. Apesar de sua situação angustiante ele estava na maior alegria de poder falar com alguém e poder brincar com um carrinho que ele fazia rodar sobre o leito às gargalhadas.
O movimento de contra-transferência provocou a indagação: como era possível? Não existia nem um sinal aparente de angústia? A conclusão inevitável foi que a angústia já estava na cara! Estava na monstruosidade vivida de modo inconsciente. Estava num real do corpo que não era mais traduzível em sentimentos, pois o melhor era aproveitar dos momentos de contato e afeto, depois de várias experiências de sofrimento intenso.

A conversa com a equipe de supervisores médicos e de enfermagem propôs alguma mudança naquele isolamento. Decidiu-se por enfaixar o rosto da criança, apesar de não ser necessário, para que houvesse um semblant de que seu rosto estava bem, sob as faixas, e para que as outras crianças não se impressionassem com sua deformidade.
Quando foi feita esta proposta ao menino, ele literalmente pulou de alegria. Na sequência, enfaixado, pôde sair do isolamento e ir para a escolinha.

O trabalho com as professoras foi absolutamente gratificante e algo da humanização pode ser veiculado numa situação extremamente difícil para todos que dela participavam.
Noutro momento de contato com o sofrimento, no real do corpo, foi atendida uma criança que sofria desde os dois anos de idade de leucemia cujo caso foi apresentado por este autor no IX Congresso de Psicomotricidade, em Recife, em 2004.
Quando se atende um caso terminal, são questões difíceis que se colocam ao psicomotricista.
Como agir quando a vida entra em falência?

Em que a prática psicomotora pode ajudar na elaboração de uma verdadeira despedida da vida?
Como pode haver um atendimento paralelo aos familiares que vivem a perda e o luto, vendo uma pessoa querida esvair-se e depauperar-se diante de seus olhos?
Como lidar com a força de Thanatos, com a angústia de morte na cena terapêutica, se o psicomotricista está habituado a acolher o jogo da vida?
Como atuar, se o jogo simbólico na relação psicomotora é construído para a progressiva integração do sujeito, implicando num futuro, num vir a ser que se descortina?

Esse foi o caso de Maria que chegou ao consultório em novembro 2001 devido às dificuldades relacionais, ao bloqueio no contato corporal e à agitação psicomotora – por exemplo, não conseguia ficar parada, andava de lá pra cá quando não tinha algo a fazer, e roía unhas –, além de certo perfeccionismo e mania de guardar tudo no armário, até papel de bala, quando ela já tinha nove anos e 9 meses.
Entrar / sair do hospital sempre foi uma prática comum em sua vida. A menina recebeu um primeiro transplante de medula com quatro anos. O doador era seu irmão, um rapazinho dois anos mais velho, com quem ela se relacionava com muito amor e uma dose igual de ciúmes.

Na Terapia Psicomotora houve um percurso que começou com jogos de controle da relação, em que ela buscava vivências e brincadeiras em que pudesse me dominar ou vencer em disputas, seja com atividades mais corporais, seja com montagens de cenas dramáticas, como lojas em que ela “vendia” objetos e brinquedos que na verdade eram substitutos de tudo que ela queria impor ao outro, como lhe tinham sido impostos tratamentos e cuidados que ela não podia recusar para viver!
Durante o tratamento ela se submeteu a um segundo transplante de medula. Ela foi atendida algumas vezes no hospital e, em outras, em sua residência, quando ela não podia se expor ao risco de contaminações saindo do ambiente protegido de sua casa.

Num desses encontros, ela construiu uma casa de papelão, espaço simbólico, um lugar para viver, do melhor modo, tendo que conviver com a sina de uma doença extremamente destrutiva, doença esta que ficava sempre marcando presença num segundo plano de todos seus atos e brincadeiras.
Depois de um momento de trabalho com o retorno ao consultório Maria demonstrou certa resistência e, de comum acordo com ela e seus pais, decidiu-se pela alta e pelo retorno em qualquer momento que se fizesse necessário, de novo, o atendimento terapêutico.

No mês de março de 2004 esse momento chegou.
Nova internação e ainda uma esperança de novo transplante, mas esse não foi efetuado, pois as células doadas pelo irmão eram reconhecidas erroneamente pelo organismo, como suas, pela semelhança, e não provocavam as mudanças necessárias.

Seu atendimento foi feito na cama do hospital, por intermédio de desenhos, conversas e muitos toques, realizados com técnicas de relaxamento. A que se revelou mais eficaz foi a Calatonia (2), de Petho Sandor, com toques suaves nas terminações nervosas da implantação das unhas dos dedos das mãos e dos pés. Maria parecia realmente acalmar-se e dormia ao final, o que não vinha conseguindo fazer à noite, que passava insone, tossindo, pois a pneumonia a atacara.

A conversa incluía temas como as razões por que ainda desejava viver (por exemplo, queria assistir ao lançamento do novo filme de Harry Potter), e foi feita a pontuação de que ela se encontrava no momento de uma escolha: continuar brigando pela vida como fizera sempre, ou descansar... Isto significava aceitar a Morte.

A cena terapêutica agora não era mais a vida... Era o leito de morte. A última sessão se passou na UTI, no final da tarde, após um acidente cerebral que a deixou em coma, mas ainda se debatendo agitada, e num momento impressionante, em que os pais relatavam seu estado de coma e a perda da esperança, o relaxamento aliviou-a, mesmo no seu estado de inconsciência. Com o toque da Calatonia, veio a calma, a menina ficou relaxada em seu leito de morte. O atendimento passou a ser feito com a mãe, a quem foi dado um verdadeiro colo relaxante, acolhendo sua cabeça no peito da psicomotricista, fazendo movimentos de massagem em suas têmporas, para aliviá-la de uma crise de choro convulsivo.

No alvorecer do dia seguinte Maria estava morta. Era o mês de junho de 2004. A família ainda precisava de suporte e, após a missa de sétimo dia, os pais e o irmão vieram para o consultório para elaborar a perda, viver o luto e refazer os laços desejantes, libidinais, erógenos com a Vida, agora sem Maria.

(2)A palavra CALATONIA vem do grego CALATHÓS que quer dizer relaxamento.

Essa técnica foi criada por PETHO SÂNDOR, um terapeuta yunguiano que desenvolveu uma seqüência de 10 toques sutis nas pontas dos dedos dos pés e em alguns outros pontos do corpo. Criou esse método durante a 2a. Gerra Mundial.
Mais recentemente o atendimento de uma criança de 5 anos, Juju, portadora deuma epilepsia bastante resistente à medicação, que já com oito meses apresentou as primeiras “convulsões”, sendo medicada desde então, mas com pouco sucesso, revela a possibilidade de atendimento psicomotor com vistas à intervenção na imagem inconsciente de um corpo doente.
Em 2006, ela sofreu um edema cerebral durante um exame cortical, buscando o foco de sua afecção, tendo ocorrido problemas com a anestesia. Agora ela se recuperou, mas ainda continua com a calota craniana aberta, procedimento feito para amenizar a pressão intracraniana devido ao edema, o que implica em maiores cuidados físicos.
Segundo a família, ela mostrava-se imprevisível: de “boazinha e carinhosa” passava a “tirar a mãe do sério”, reagindo a palmadas com crises de birra, e “especializando-se em irritar”, segundo o pai. Não aceitava “não” e queria tudo do jeito dela.

No diagnóstico psicológico mostrou desde o primeiro contato, junto com os pais, sua necessidade de “bagunça”, revelando conteúdos de fantasias de ataque uretral e anal, opondo-se à psicóloga / psicomotricista, dizendo claramente “não vou falar!”, quando algumas perguntas lhe eram feitas. Além disso, evidenciou um retardo evolutivo segundo a escala de GESELL (1990).
Em relação à psicomotricidade, apresentou clara defasagem do esquema corporal, levando-se em conta os problemas emocionais que acentuam suas dificuldades, pouca organização viso-espacial e coordenação global também aquém de sua idade cronológica. Seus desenhos eram “puros rabiscos” e a confusão de pensamento e conduta de oposição, sem muito nexo, eram o constante em sua conduta.
Na sua imagem inconsciente do corpo registravam-se fantasias, desejos e conflitos que revelavam as alterações psico-afetivas, com ansiedade frente a fantasias de ameaça e sentimentos disfóricos na relação com os outros. Daí o constante “não” de afirmação de sua própria identidade e certa recusa do contato, sobretudo corpo a corpo.

A inter-relação entre ela e os pais ocorreu ora de modo fusional – todos fazem o mesmo desenho –, ora de confronto. Os pais “criticavam” seus desenhos ou não entendiam o que ela expressava, e a criança agia com oposição, fazendo a bagunça / rabisco no desenho e repetindo, de modo estereotipado, seus grafismos informes, às vezes algumas letras soltas.
Na terapia psicomotora, a primeira intervenção que pôde desviar o curso repetitivo de suas ações para novos atalhos relacionais ocorreu num jogo de personificação de um gatinho. Ela chegou bem regredida ao consultório, andando de quatro, sua mãe reclamando que ela parecia mais bebê que as irmãs gêmeas mais novas. Acolhi sua expressão e a chamei de gatinha, convidando-a para entrar e brincar como quisesse. Ela começou a fazer “miau” e eu disse a ela: “ei, gatinha, vem cá pra te fazer carinho!”. Pela primeira vez ela se aproximou da psicomotricista, roçando como um bichinho em minhas pernas, e eu acariciei sua cabecinha.... Estava montado um jogo simbólico que iria se repetir em várias sessões, de modo alternado, com outras atividades.

Compreender suas fantasias, por exemplo, a imersão no mundo de contos de fadas e a identificação com as princesas, idealizando uma imagem corporal narcisista e meio onipotente, de modo defensivo, diante de todo o sofrimento no corpo real – as dores na cabeça e, inclusive, a perda do próprio cabelo raspada para a cirurgia –, foi outro passo importante na re-conquista de seu corpo próprio e de uma relação com o outro.
Os filós, usados como véus e vestidos, os fantoches de dedos e os desenhos começaram a ser instrumentos para representar as cenas simbólicas necessárias para trabalhar seu lugar como filha no triângulo edipiano. Muitas vezes o jogo ocorria diante do espelho, ela interagindo com sua imagem especular, enquanto eu nomeava e pontuava suas fantasias.

Como parceira simbólica de seus jogos e a ajudando-a no seu grafismo que, a partir desse momento, pôde sair das garatujas e começar a representar figuras humanas ainda primitivas, seu mundo interno foi traduzido em interpretações sobre suas relações, sobretudo seu desejo edipiano, pois a castração simbolígena desta fase ainda não foi bem assimilada por ela.
Atualmente Juju verbaliza enquanto desenha no quadro: “a menina vai casar com o homem”. Seu desejoé reconhecido, mas há pontuação da interdição de relações entre pessoas de diferentes gerações, nesse plano da sexualidade, e é verbalizado que ela é uma menina que vai crescer e poderá se casar com um homem.

Ela diz, ainda, que não quer crescer e fala de Peter Pan, da Terra do Nunca. O processo de acesso à sua identidade de criança está se desenvolvendo com a re-elaboração de sua imagem inconsciente do corpo, como um sujeito desejante, inserido em uma relação de afeto e seus “nãos” oposicionistas já começam a desaparecer.
Falta-lhe ainda acatar e introjetar a interdição do Édipo, o que faz que ela ainda revele certas confusões de pensamento que podem, em alguns momentos, sugerir fantasias psicóticas.
As notícias que a escola me dá sobre a aluna e um dia de observação que fiz em sua sala mostram que a criança está evoluindo também no espaço social, relacionando-se melhor com os colegas, tendo, inclusive, um coleguinha preferido que a abraça muito e brinca preferencialmente com ela.

Há ainda um longo caminho a percorrer no sentido da humanização e simbolização do vivido corporal, mas os primeiros passos já estão sendo dados por intermédio da psicoterapia enfocada na relação psicomotora.
Esses recortes de atendimento tiveram o intuito de mostrar que há uma articulação possível entre saúde e psicomotricidade quando esse tema é abordado a partir do lado da doença, em intervenções hospitalares e em consultório, na clínica psicomotora.
Por outro lado, a partir do lado saudável, não podemos esquecer da articulação entre saúde, psicomotricidade e educação que ocorre nas séries iniciais da Educação Infantil ou mesmo nas creches.

O atendimento psicomotor tem um aspecto preventivo: é uma espécie de vacina em analogia com os procedimentos médicos, que utiliza o jogo psicomotor como o veículo de promoção da saúde e de resolução precoce de conflitos que podem surgir nas primeiras etapas de desenvolvimento da criança.
Conflitos e situações de stress que não são tão radicais como os exemplos que apresentei aqui, mas que devem ser valorizados se queremos escutar e agir levando as crianças a serem sujeitos em sua evolução.

O tratamento psicomotor pode, assim, dirigir-se às crianças doentes, com afecções somáticas que atingem sua vida desejante, sua imagem inconsciente do corpo, e, também, a crianças extremamente saudáveis que se vacinam na vivência das sessões de educação psicomotora para prevenir conflitos que poderiam atingir seu corpo próprio e sua posição de sujeito desejante diante do encontro com os outros no decorrer de sua vida.

BIBLIOGRAFIA

CABRAL, Suzana V. Psicomotricidade relacional – Prática clínica e escolar. Rio De Janeiro: Revinter, 2000. 354 p.
DOLTO, Françoise. L’image inconsciente du corps. Paris: Seuil, 1984.
DOLTO, Françoise e NASIO, Juan David. L’enfant du miroir. Paris: Rivages/Psychanalyse, 1987.
GESELL, Arnold - Diagnóstico do Desenvolvimento. São Paulo: Livraria Atheneu Editora, 1990.
JOLIVET, Bernard. Sobre a relação em Psicomotricidade, In Revista Perspective Psychiatrique, n. 29, Paris, 1972.
KESTEMBERG, Judith S. M.D. Children and parents: psychanalytic studies in development. Nova York: Janse Aronson, 1975.
SANDOR, Petho e outros. Técnicas de relaxamento. São Paulo: Vetor, 1974. 113 p.

WINNICOTT, D. W. A criança e seu mundo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1982.
___________. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

NOTA:

O presente artigo está publicado no livro Psicomotricidade na Saúde, organizado por FERREIRA, Carlos Alberto de Mattos & HEINSIUS, Ana Maria. Rio de Janeiro. WAK Editora, 2010.
O contato para aquisição do livro é Editora WAK http://www.leandrolivros.store/departamento/8343/05/psicomotricidade

5 Respostas

  1. Ótimo artigo! Obrigada a ABP por essa excelente oportunidade.
  2. Bom dia!!!
  3. Artigo maravilhoso!
  4. Artigo excelente. Com importante visão da terapia psicomotora. Parabéns
  5. Excelente artigo!

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