As Conquistas Neurodesenvolvimentais da Psicomotricidade – Autor: Vitor da Fonseca

AUTOR:

Vitor da Fonseca
Sócio de Honra da Associação Brasileira de Psicomotricidade
Professor Catedrático Agregado aposentado no Departamento de Educação Especial e Reabilitação da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa.
Professor Convidado da Universidade Lusófona do Porto (Licenciatura em Psicopedagogia Clínica na disciplina de “Intervenção Psicopedagógica nos Distúrbios de Desenvolvimento”;
Doutorado (Ph. D.) em Educação Especial e Reabilitação: Tese de doutoramento: "Significação Neuropsicológica dos Factores_Psicomotores", U.T.L., 1985.
Mestrado em Ciências de Educação: área de "Learning Disabilities" (Dificuldades de Aprendizagem) pela Universidade de Northwestern – Evanston, Chicago, 1976.
Licenciado em Motricidade Humana: área de "Reabilitação Psicomotora" pela U.T.L., 1971.
Autor de diversos livros, capítulos e artigos descritos ao final deste artigo.

As Conquistas Neurodesenvolvimentais da Psicomotricidade

Tais conquistas adaptativas ou competências evolucionistas neurofuncionais integradas e interiorizadas sistemicamente no cérebro e decorrentes da experiência corpórea e motora na interacção com o envolvimento, ocorreram na evolução da espécie humana ao longo de milhões de anos, e ocorrem ao longo de, sensivelmente, duas dezenas de anos no desenvolvimento biopsicossocial (ontogénese da infância e da adolescência) dum ser humano único, total, evolutivo e involutivo.

Tais conquistas que consubstanciam a evolução da espécie humana, e paralelamente, o desenvolvimento duma dada criança, devem merecer uma reflexão mais aprofundada quando procuramos compreender as relações cérebro-comportamento ou cérebro-motricidade, uma vez que no contexto espistemológico mais elevado, a Criança é o verdadeiro Pai do Homem.

A natureza das relações corpo-motricidade-cérebro-mente enfocam-se necessariamente, na natureza do desenvolvimento da espécie humana (filogénese, sociogénese e retrogénese), logo, na natureza do desenvolvimento da criança (ontogénese ou disontogénese), uma vez que o seu estudo complexo coloca em jogo a dupla herança biológica e cultural da Humanidade, assim como, a importância crucial e determinante das interacções organismo-envolvimento.

Estudar as relações cérebro-comportamento, pressupõe equacionar a relação recíproca, permanente e perpétua entre a evolução e a educação ao longo dos tempos, quer no passado e no presente, quer obviamente, e prospectivamente, no futuro.

A apropriação de competências adaptativas, expressa na evolução e no desenvolvimento humano, sugere um processo de aprendizagem e de neuroplasticidade, que não só transforma as relações corpo-motricidade-cérebro-mente, como implica a integração e a emergência gradual ou subita de novas habilidades, bem como, subentende a hierarquização de novas redes neurofuncionais cada vez mais organizadas e especíalizadas.

Os seres humanos não nascem ensinados por alguma razão, nascem pelo contrário, imaturos e com imperícias múltiplas, por isso, precisam de vinculação emocional e afectiva e protecção social ao longo da sua infância prolongada Wallon, 1969, 1970; Vygostsky, 1979a, 1979b, 1986).

A evolução da espécie humana e o desenvolvimento da criança individual espelham um processo de mudança nas relações corpo-motricidade-cérebro-mente que ocorre da imaturidade à maturidade, da imperícia à perícia, ou seja, do gatinhar ao andar, da lalação à articulação, do acto ao pensamento e do gesto à palavra, da leitura à escrita (Fonseca, 2009, 2016).

Em suma, o desenvolvimento infantil reflecte a trajectória evolucionista da espécie humana prescrita nos genes, as aprendizagens universais da espécie humana, constituem assim, a matriz neurofuncional donde emergem as aprendizagens individuais. É dentro deste contexto que tentamos aqui abordar as relações corpo-motricidade-cérebro-mente.

Do inato ao adquirido, tais relaçoes, por consequência, obedecem a este paradigma básico do desenvolvimento humano. A totalidade do organismo e a sua integridade, dependem da organização sináptica do cérebro e da influência e activação corpórea e motora do envolvimento, através da cadeia dinâmica: genes-corpo-motricidade-envolvimento-cultura-educação-cérebro-mente.

Em termos de síntese biocultural, portanto, o neurodesenvolvimento humano, decorre da emergência e da hierarquização organizacional de cinco grandes conquistas neurofuncionais a saber:

  • (1ª) a postura e a marcha bípedes (macromotricidade);
  • (2ª) a praxia fina e a invenção e fabricação de instrumentos (micromotricidade);
  • (3ª) a comunicação gestual e verbal (oromotricidade);
  • (4ª) a expressão artística e a expressão escrita (grafomotricidade); e finalmente,
  • (5ª) a criação, retenção, transmissão e utilização do conhecimento, que se constituem como neurocompetências pedestal da estátua da cultura e da civilização humanas.

Paralelamente em termos de desenvolvimento da criança, todas estas competências adaptativas são incorporalizadas e internalizadas sequencialmente e em co-interacção mútua, elas integram-se neuro-funcionalmente em contiguidade simultânea e numa co-estabilidade coerente e sucessiva.

Sem a observância destas propriedades neurofuncionais do sistema corpo-motricidade-cérebro-mente, o desenvolvimento humano desvia-se da sua trajectória optimal, as crianças com necessidades desenvolvimentais e educacionais especiais são a prova evidente dessa condição da natureza humana.

É dentro dessa dinâmica evolutiva que a neuropsicomotricidade se coloca, como ciência, estudando as relações entre as diversas unidades funcionais do cérebro e as múltiplas acções observáveis que o sujeito produz ao longo da sua experiência de vida. Aqui, o termo comportamento é utilizado para descrever a ampla variedade de respostas motoras adaptativas, umas simples e subtis, outras coordenadas e complexas, que ocorrem no organismo humano como acabámos de descrever.

Podemos assim e agora, depois de apresentarmos um esquiço do cérebro, perguntar o que é então o comportamento?

O comportamento numa perspectiva neurobiopsicológica é uma manifestação da conduta ou da actividade dum organismo (complexo corpo-motricidade-cérebro-mente) em interacção com o meio ambiente ou o envolvimento, o que pressupõe uma relação cognitiva e inteligível, entre:

  • -) a situação (implicando a presença, o processamento e a integração de estímulos sensoriais - input); e,
  • -) a acção (implicando a planificação e a execução de respostas motoras adaptativas – output, coadjuvadas com as funções de retroacção - feedback);

O comportamento humano, isto é, qualquer acção, motricidade ou resposta observável, engloba naturalmente inúmeras manifestações ou actividades, como já vimos atrás.

Tais condutas são efectivamente realizadas harmoniosa e eficazmente, de forma adaptada e ajustada, sem fazer um esforço atencional consciente, mas só depois de devida e arduamente aprendidas.

A aprendizagem humana como modificabilidade corpórea e comportamental portanto, pode ser explicada em três fases: inicial, intermédia e final.

Na fase inicial as relações corpo-motricidade-cérebro-mente no sujeito estão ainda fragmentadas por inexperiência e imaturidade.

Na fase intermédia as relações do sistema complexo corpo-motricidade-cérebro-mente, vão sendo gradualmente integradas no sujeito devido à experiência corpórea intensa e deliberada. Alguns neurocientistas sugerem 10.ooo horas pelo menos, asseguram os seus estudos de imagiologia cerebral entre seres humanos iniciados comparados com seres humanos peritos em várias actividades motoras ou simbólicas. Nesta fase crucial da aprendizagem, tais conexões por via do treino prolongado vão adquirindo mais autoconsciêncialização, mais solidez e segurança emocional, e obviamente, mais progressos na automaticidade. Nesta altura do processos de aprendizagem, o corpo e a sua motricidade demonstram já parâmetros de fluência, precisão e de velocidade muito apreciáveis, os circuitos neuronais estão já reciclados mas continuam a fortalecer-se.

A fase final evidência a mudança de comportamento provocada pela prática, a fluência sonhada e desejada é então incorporada e continuamente aperfeiçoada, a perícia e a excelência performática não param de ser apuradas.

Eis o segredo da aprendizagem humana, seja a subir e a descer a uma árvore para fugir de predadores, seja a lançar um arco e uma flecha, a desenhar e a pintar, a fabricar e a construir instrumentos e abrigos, a nadar, a andar de bicicleta, a ler e a escrever, a resolver um problema matemático ou científico.

O nosso cérebro, assume assim, após experiência continuada e prática deliberada de aprendizagem, tais processos de modificabilidade comportamental com automaticidade, fluência, perícia e excelência,ou seja, sem controlo atencional consciente (Hale & Fiorello, 2004).

Somos a espécie mais adaptada ao envolvimento, porque não nascemos ensinados, precisamos de ser ensinados para aprender e para nos adaptarmos às suas mudanças, sem esse esforço corpóreo, sem enfoco atencional e sem organização neurológica o nosso triunfo evolutivo não seria possível.

Vejamos então, ao terminar este ensaio de neuropsicomotricidade sobre as relações corpo-motricidade-cérebro-mente, com base no modelo de Luria 1969, 1973, 1977, 1979, 1980, como é que o cérebro se organiza em termos neurofuncionais para produzir qualquer tipo de aprendizagem, comportamento ou motricidade.

Publicação Wak Editora

O presente artigo está publicado em FONSECA, Vitor. Neuropsicomotricidade. Ensaios sobre as relações entre o corpo, motricidade, cérebro e mente (Capítulo 4). Rio de Janeiro: Wak Editora, 2018.
Link para aquisição do livro - Editora WAK: http://www.leandrolivros.store/produto/19400/neuropsicomotricidade
Outros livros de Psicomotricidade: - Editora WAK:http://www.leandrolivros.store/departamento/8343/05/psicomotricidade

Referências de Livros publicados, capítulos e prefácios pelo Prof Dr Vitor da Fonseca:

* 38, 20 também editados no estrangeiro: 1 em Inglaterra, 1 na Alemanha, 2 no México, 4 na Espanha e 17 no Brasil:

* “A Organização Práxica e a Dispraxia na Criança” (2014), Âncora editora, Lisboa, Portugal, <177 págs.>;

* “Tendências Futuras da Educação Inclusiva” (2012) – 1º capítulo do livro intitulado “Educação Especial: em direção à educação inclusiva”, organizado por Claus Stobaus e Juan Mosquera. Porto Alegre: EdipucRS ;

* “A Psicomotricidade como ciência emergente” (2013) – prefácio do livro intitulado “Psicomotricidade: abordagens emergentes”, editado por Jorge Fernandes e Paulo Filho, S. Paulo: Manole.

* “Síndrome de Down: um enfoque psicomotor e cognitivo” (2013), Editora Df Down, Brasília, Brasil <120 págs.>;

* “Linguagem e Comunicação: filogénese, sociogénese e ontogénese” (2011) – 4º capítulo do livro intitulado “Comunicar e interagir: um novo paradigma para o direito à participação social das pessoas com deficiência”, organizado por Augusto Deodato Guerreiro. Lisboa: Edições Universitárias Lusófonas ;

* “Cinco Paradigmas do Desenvolvimento Cognitivo” (2010) – Um dos Prefácios do livro intitulado “Estratégias Inovadoras: Como Fazer? – Teoria e Prática”, da autoria de Luis Pessoa, Lisboa: Editora RH;

* “Psicomotricidade e Neuropsicologia: uma abordagem evolucionista” (2010), WAK Editora, Rio de Janeiro, Brasil e Âncora editora, Lisboa, Portugal, 2011 <110 págs.>;

* “Psicomotricidade: filogénese, ontogénese e retrogénese” (2009), WAK Editora, 3ª edição, Rio de Janeiro, Brasil <354 págs.>;

* “Intervenção Psicoeducacional em Dificuldades de Aprendizagem” (2009) – Prefácio do livro intitulado “O Salta Letras” para crianças com dificuldades na leitura e na escrita de Joana Almeida e colaboradoras, Lisboa: Papa-Letras;

* “Aptidões Psicomotoras e de Aprendizagem: estudo comparativo e correlativo com base na Escala de McCarthy” (MSCA – McCarthy Scales of Children´s Abilities”, Âncora editora e CORPE, Cadernos Psicoeducacionais, nº 1, 2008 (em co-autoria com Joana de Oliveira) <79 págs.>;

* “Dificuldades de Aprendizagem Específicas” (2008) – Prefácio do livro intitulado “Dificuldades de Aprendizagem Específicas – contributos para uma definição portuguesa”, de Luis Miranda Correia, Porto: Porto Editora Lda.;

* “Cognição, Neuropsicologia e Aprendizagem” 6ª edição (2014), Editora Vozes, Petrópolis, Rio de Janeiro, Brasil, <183 págs.>;

* “Terapia Psicomotora: estudo de casos”, 6ª edição (2013), Âncora editora, 2007 <352 pags.>[Editado em Espanha pela Editorial INDE e no Brasil pela Editora Vozes];

* “Desenvolvimento Psicomotor e Aprendizagem”, Âncora editora, Lisboa, 2005 <861 págs> [Editado no Brasil pela editora ArtMed em 2008];

* “Dificuldades de Aprendizagem: abordagem neuropsicopedagógica”, 5ª edição (2014), Âncora editora, Lisboa <512 págs.>;

* “Teoria da Experiência de Aprendizagem Mediatizada e Interacção Familiar”, (co-autor com Ana Cristina da Cunha), FMH edições, Lisboa, 2003 <100 págs>;

* “Educação Cognitiva e Aprendizagem”, Porto Editora, Porto, 2002 (em co-autoria com Vitor Cruz) <190 págs>;

* “Psicomotricidade: perspectivas multidisciplinares”, Âncora editora, Lisboa, 2001, <173 págs.>. [Editado no Brasil pelas Artes Médicas do Sul em 2004 e no México pela Editorial Trillas no mesmo ano];

* “Programa de Reeducação Cognitiva PASS (Planificação, Atenção e Processamento Simultâneo e Sequencial de Informação): avaliação dos seus efeitos em Crianças com Dificuldades de Aprendizagem” (co-autor), FMH edições, Lisboa, 2001, <139 págs.>;

* “Progressos em Psicomotricidade” (co-editor e autor), FMH edições, Lisboa, 2001, <250 págs.>;

* “Cognição e Aprendizagem: da abordagem neuropsicológica à psicopedagógica” – Âncora editora, Lisboa, 2001 <115 págs.> ;

* “Perturbações do Desenvolvimento e da Aprendizagem: tendências filigenéticas e ontogenéticas”, FMH edições, 2000 <156 págs.>;

* “Insucesso Escolar: abordagem psicopedagógica às dificuldades de aprendiza-gem” – Âncora editora, Lisboa, 1999 <512 págs.>;

* “Aprender a Aprender: a educabilidade cognitiva” – 3ª edição actualizada (2014) Âncora editora, Lisboa, <682 págs.>[Editado no Brasil pela editora Artes Médicas];

* “PROLEXIA: Programa de Enriquecimento da Leitura” - Ed. CORPE, Lisboa 1996 <90 págs.>

* "Programa de Enriquecimento Instrumental de Feuerstein: um método para ensinar a pensar" - Ed. CDI da Faculdade de Motricidade Humana, Lisboa 1995, em co-autoria, <90 págs.>;

* "Avaliação dos Efeitos do Programa de Enriquecimento Cognitivo - PEI em Jóvens e Adultos de Baixo Rendimento Cognitivo" - Ed. PENSAR / Centro de Reabilitação CERCIMOR, 1994, em co-autoria, <213 págs.>;

* "Avaliação dos Efeitos do PEI no Potencial Cognitivo de Jóvens Pescadores e Marinheiros-Pescadores em Formação de Alternância" - Ed. PENSAR /FORPESCAS, 1992, em co-autoria, <150 págs.>;

* "Assessment and Treatment of Learning Difficulties in Europe" - colaborador com o capítulo "Assessment and Treatment of Learning Difficulties In Portugal", Ed. EASE, Foggia, 1992 (editado na Alemanha);

* "Manual de Observação Psicomotora: significação psiconeurológica dos factores psicomotores" – Âncora editora, Lisboa, 3ª edição 2012 <382 págs..> (editado no Brasil pela editoras Artes Médicas e Wak e em Espanha pela editora INDE);

* "Avaliação dos Efeitos do Programa de Enriquecimento Cognitivo - PEI de Feuerstein no Potencial Cognitivo de Adolescentes com Dificuldades de Aprendizagem" - Ed. Instituto de Inovação Educacional, Lisboa, 1991 <193 pàgs.>;

* "Educação Especial: programa de estimulação precoce"- Ed. Notícias, 2ª edição, Lisboa, 1989 <270 págs.> (editado no Brasil e a editar na Espanha).;

* "Desenvolvimento Humano: da filogénese à ontogénese da motricidade" - Ed. Notícias, Lisboa, 1988 <338 págs.> (editado em Espanha e no Brasil);

* "Escola, escola quem és tu?: perspectivas psicomotoras do desenvolvimento humano" - Ed. Notícias, 4ª edição, Lisboa 1988 <376 págs.> (editado no Brasil);

* "Psicomotricidade: contributo para o estudo da sua génese" - Ed. Notícias, 4ª edição, Lisboa, 1988 <352 págs.> (editado no Brasil e na Espanha);

* "Uma Introdução às Dificuldades de Aprendizagem" - Ed. Notícias, 2ª edição, Lisboa, 1984 <407 págs.> (editado em Espanha, no México e no Brasil);

* "Special Education and Social Handicap" - colaborador com o capítulo: "Learning and Developmental Disabilities" - Ed. Freund Publishing House Ltde., London, 1983 (pág. 323-328);

* "Diagnóstico Informal da Leitura - DILE" - Ed. CDI do IAACF, Lisboa, 1978 <34 págs.>;

3 Respostas

  1. Amei essa publicação, novas pesquisas, para uma educação de qualidade. Continuem nos dando oportunidades. Obrigado por tudo.
  2. Vitor da Fonseca sempre ansiando e agregando valor com seus conhecimentos! Muito bom!
  3. Gostei muito dessa publicação.

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