Catedral dos Sonhos – Autor: Solange Thiers

AUTOR

Solange Thiers
04/1940 - 03/2018
Criadora da Metodologia Ramain-Thiers, Psicóloga, Psicomotricista, Psicanalista, Especialista em Psicomotricidade e Especialista em Psicologia Clínica pelo CRP 5ª Região - RJ, Sócia fundadora e titular da ABP Sociedade Brasileira de Psicomotricidade, Presidente de Honra da ABP, Mestre em Filosofia e Ética pela UGF, Pedagoga, Sócia fundadora e titular da ABRT Associação Brasileira Ramain-Thiers, Presidente da ABRT de julho de 1990 à março de 2018, Formação em Psicanálise pelo IBRAPSI, Publicação de livros e artigos em livros sobre Psicomotricidade e palestras em Anais dos Congressos Brasileiros de Psicomotricidade.
Site: www.solange.thiers.nom.br
e-mail: cesir@uol.com.br

CATEDRAL DOS SONHOS

Solange Thiers

(...) “as imagens do sonho, como aquelas que se formam na água, encontram-se desfiguradas pelo movimento, e as aprecia melhor aquele que é capaz de reconhecer o verdadeiro na imagem deformada, desfigurada”. (...)
Aristóteles (De Divinatione per Somnum II)

Neste momento fiz uma opção:

Abordar questões da sociedade em que vivemos, seus valores, como a busca incessante de felicidade. O homem fundamenta-se por meio das relações, da consciência de si e da presença no mundo. A consciência de si é sentida por um corpo que contém o vivido. A representação e o simbolismo, no entanto, são cortes. transformadores do Ser, dentro da sua realidade de espaço e tempo.

O corpo pode ser também a representação simbólica de um povo, em si próprio um mito. Nele ocorrem as transformações mais sutis da ordem do humano, desde o nascimento até a morte. Inúmeros fatores aparecem durante sua construção como ente simbólico que promove os feitos sociais e a cultura. E a forma de vida das diferentes culturas abriga no corpo em geral seu modo de existência no mundo.

A pesquisa do corpo como entidade histórico-cultural pode ser correlacionada ao mito de Narciso, e é até oportuno, que o façamos por vários motivos. Pela ausência de ética que atravessa a atualidade, na relação entre os seres ou entre os corpos.

O corpo, na sociedade atual, é objeto de consumo e possui uma função extremamente materialista. Para estar inserido no contexto da cultura somática é fundamental a atenção para o chamado sensorialismo, colocado no mesmo patamar de sentimentos ou ações.

Baudrillard (1970) nos fala do corpo como objeto constituindo uma “redescoberta do sonho” de liberdade feminina, que serve como valor de propaganda. As peças publicitárias que envolvem corpo ajudam a vender produtos. São esteticamente belos para que seja ativada a pulsão de compra, isso satisfaz os interesses individuais e corporativos.

O perigo que reside nessa maneira “moderna” de sedução e manipulação é a provável desconstrução do corpo (nas suas próprias razões, inclusive na sexualidade). Quer dizer: vemos corpo tornar-se mercadoria aceitável socialmente pelo processo econômico de troca utilizado pelo marketing.

Nós, terapeutas, precisamos estar alertas para a vulgarização do corpo. Jamais aceitar a concepção moderna de que a felicidade depende dos padrões físicos impostos pela mídia.Será que repetimos o modelo dos gregos?os gregos cultuavam o corpo e a estética dos mesmos.
O corpo é indissociável da mente e dos sentimentos. Isto porque para nós, entre o psiquismo e o soma existe o espaço preenchido pela psicomotricidade. Nossa preocupação em Ramain-Thiers deve estar sempre voltada para a formação do Ser total, aquele que, inserido na cultura, é produtivo, sensível, harmônico, consciente de suas ações, em suma é um ser social.

O corpo, temporalidade e espacialidade é o lugar sagrado, onde vida e morte se entrecruzam. Nesta dimensão dual, ele passa de entidade limite a objeto da violência social. No mundo de hoje, o homem “vira Deus” e decide sobre vida e morte dos que se tornam seus alvos. Paralelo as descobertas da ciência e da tecnologia podemos estar caminhando no sentido de uma ajuda a distorções e tornar um marco decisório dos tempos!

A nosso ver, pode surgir uma conciliação entre saberes diferentes. Como em espelhos, o reflexo de um objeto noutro pode ajudar a compreender certos fenômenos da atualidade.

A unificação do Ser envolve a tríade corpo, mente e psiquismo: um desafio instigante. Como o é buscar a essência do corpo como expressão, simbologia, fisiologia e reações psicossomáticas. Existem questões que atravessam a mente dos homens e seus corpos, e assumem proporções extremamente individualistas. Na sociedade passa por estágios narcísicos dos homens.

A Sociedade de Hoje

O mito de Narciso, em sua dualidade vida-morte, é um suporte à compreensão do corpo que promove a vida e que é finito no tempo. Uma temática relevante por estar numa pesquisa que envolve corpo, cultura e momento histórico-cultural de uma sociedade. A moral esta deturpada.O mito aparece não só vinculado ao corpo e à sua idolatria, como também, de certa forma, a todas as manifestações sociais doentias e perversas. Em 1998, em “Sociopsicomotricidade Ramain-Thiers”, a questão moral já era apresentada:

“(...) A nossa sociedade debate-se desesperadamente contra a falta de autoridade oriunda da não-entrada da função paterna, o que nos foi deixado como legado histórico e social. Ou seja, nosso povo deixou de respeitar a lei, e está com dificuldades de encontrar uma forma segura de agir. Entretanto, este fenômeno de agora já aconteceu em vários momentos da história política e social dos povos em geral, até mesmo na realidade de Freud (...).” (THIERS:1998)

O que dizer desse momento histórico brasileiro? Será que teríamos argumentos para explicar tanta degradação moral? Seria só o narcisismo? A falta da função paterna? O abandono do bem comum e a permanência nos interesses individuais?

Encontramos o Ser da atualidade, o que existe nas sociedades em geral, sob a dominação da cultura do narcisismo. Uma cultura mercantilista, que pouco a pouco gera a transformação dos valores morais numa espécie de “flexibilização” progressiva e ininterrupta. Tudo é permitido porque os ideais saem dos modelos familiares e se deslocam para outros, como o dos que foram bem sucedidos economicamente, sem o esforço do trabalho. Formados por pessoas que mentem com autorização para não responder a verdade: os chamados “vencedores”, na verdade não o são, mas possuem a sedução, usam a corrupção que confunde a cabeça dos adolescentes. Assim, mostrar-me um caminho errôneo facilitado pela influência malévola do egoísmo, o maior vício da humanidade.

As famílias “em decomposição” assistem passivamente ao espetáculo da dissolução dos princípios, meio confusas diante de tanto desmoronamento. Delegam aos filhos a direção do lar, abdicando da função paterna e materna e permitindo-lhes administrar as necessidades da vida familiar invertendo os papéis. As crianças crescem desconhecendo limites; exigindo brinquedos caros e tudo que a propaganda impõe. Mais adiante estarão a avançar e então os pais, para evitar aborrecimento deles mesmos e frustrações nos filhos atendem a tudo. Compram roupas de griffe, tênis importado, maquiagem, e tudo o que querem. Desta maneira o que conseguem é ir anulando o tempo de vida mais precioso, a infância dos seus filhos, corrompendo-lhes os bons valores.

Sem limite e sem a entrada da função da autoridade paterna, familiar ou nacional, não se ultrapassa a barreira sociopática. Resultado: termina-se sem um real entendimento da vida, ou seja, não acontece a entrada no complexo edipiano.

Os sonhos se restringem a “TER”, ainda que para isto seja preciso matar, como assistimos ultimamente na sociedade . A cultura do narcisismo é a cultura da violência. Fica descartada a opção da sociabilidade, porque parte do Ser das pessoas já foi ‘entregue a egos ditos ideais.

Não podemos colocar uma sociedade no divã, sem dúvida, mas há uma relação de dominação sadomasoquista entre o desmando, a corrupção de governos. E soma-se a isso a alienação de um povo que não quer ver e não assume seu próprio sofrimento, perdendo-se no consumismo.

Segundo Hannah Arendt (2003), o poder é algo ancorado no consenso, na persuasão, no diálogo,e a violência age como o uso da imposição da vontade de uma minoria: sem respeito, sem diálogo, esquecendo os compromissos morais. Nós, seres conscientes da realidade, temos memória e debatemos formas éticas para buscar mudar o Brasil de amanhã. Em contra-partida, o ser da atualidade, circula em grande número em nossa sociedade, não valora tradições porque sem passado, perde a esperança no futuro. Desconsidera ou até desconhece o tempo como formador do desenvolvimento, mantendo-se na marginalidade. Vive a ilusão de que a felicidade pode ser comprada, ainda que o preço seja a vida do outro.

Para Jurandir Freire (2004) dois são os fatores que determinam o aumento da violência em uma sociedade, a saber a concentração de riquezas e a desorientação eminente pela perda de valores tradicionais. Também o culto ao corpo, a hipertrofia do capitalismo promoveu fenômenos que levam a delinqüência: a avidez por objetos supérfluos uma espécie de “síndrome” de viver só em busca do prazer sensorial!

Tecendo esta malha de dados sobre o consumo e a vida, como pensar a importância da felicidade interior interligadas a estes fios?

Segundo Arendt (2003) o consumismo obrigou os homens “a viver a ilusão de que tudo podem ter”, o que transforma o princípio da utilidade em felicidade. E como isto acontece?

Em A Condição Humana:

(...)”tudo que ajuda na produtividade e alivia a dor e o esforço torna-se útil. O critério de avaliação não é de forma alguma a utilidade e o uso, mas sim a felicidade. Isto é, a quantidade de dor e prazer experimentados.” A compreensão de que a felicidade é como se fosse assim: igual à soma dos prazeres menos as dores (...); pode ser percebida por sensações de ‘distância’ ou alheamento dos objetos do mundo (2003:322).

Conclui-se é um princípio narcisista.

As bases da teoria do consumismo surgiram da prática econômica, originou o ato de consumir, e a sustentação está na demanda emocional por prazer e ausência de dor, o resultado gera a insatisfação psicológica do consumidor.

No passado, o homem sentia prazer em criar objetos para o enriquecimento da cultura da humanidade. Deixava marca, tradição, e pensava no consumidor como um beneficiário da alegria e do seu prazer de viver advindo daquele objeto.

Hoje, o princípio da felicidade privilegia o espaço público, o cenário do espetáculo, criando a fugacidade do prazer. Os princípios morais cedem lugar ao imaginário, numa fuga das responsabilidades maiores, da prática das virtudes e valores. (DEBORD:1995)

A Revolução Industrial sem dúvida possui responsabilidade no processo. Com ela, a felicidade passa a ser conquistada através do consumo de bens. Esta realidade está excedendo em nossos dias. E mais, pelo fato de ter sido introjetado no inconsciente coletivo, o narcisismo utilitarista do prazer de consumir para aliviar a dor.

Segundo Freire: “pensar em oferecer água a quem tem sede de justiça social é o mesmo que pensar que a felicidade pode advir da mercadoria”

Consumimos mercadorias como se fossem alimentos? O consumismo acaba por tornar-se uma prática social que coloca os objetos supérfluos no mesmo patamar do prazer oral pelos alimentos. Rapidamente desfeitos saciam a fome por curto prazer,servem de ilusão prazerosa. É um princípio de ética utilitarista que condiciona a felicidade pela posse de bens materiais, o que é inaceitável.

Para Baudrillard (1970) o consumismo só se perpetua porque, segundo o autor, existe na atualidade uma galopante pobreza psicológica, cujo significando pode ter íntima ligação com a obrigatoriedade do gozo, do prazer.

(...)Tornou-se “dever” do cidadão consumir como empreendimento de gozo, em busca de satisfação – o que por certo vem deteriorando os princípios morais. Essa obrigatoriedade de ser feliz a qualquer preço tem como base a insaciabilidade emocional da pessoa de hoje. O consumismo cria regras de inquietação e receio, uma certa ansiedade que gera necessidade de diversão. Esta ansiedade atrai a exploração de todas as possibilidades de gozo; faz-se de tudo para vibrar, para ter a certeza de que controla a vida. Mas sem sentir, cometendo barbáries em nome do seu dever de ter gozo, como se por decreto intelectual(...) (BAUDRILLARD: 1970.p112).

Nestes tempos hiper-modernos também a incerteza, a angústia, a decepção tornam-se presentes na vida de cada um. Isso acontece porque o futuro é uma nova ameaça. Na conturbação, a face de Narciso - antes tão decantada por sua beleza, está desfigurada.

Isto significa estarmos vivendo uma transformação civilizatória. Soa a nós como contradição – mas não o é. Porque da lei da destruição sempre surge a lei do progresso. Os períodos de altos e baixos são necessários para o re-equilíbrio de forças desordenadas.Para onde iremos?

Torna-se importante fazer a reviravolta de conceitos baseada em Aristóteles:

(...) “as imagens do sonho, como aquelas que se formam na água, encontram-se desfiguradas pelo movimento. Quem as aprecia melhor é o que consegue vislumbrar o verdadeiro na imagem deformada”(...) (ARISTÓTELES: DIVINATIONE PER SOMNUM ii)

Podemos ver a desfiguração das sociedades, e, apesar das aparências, reconhecemos um verdadeiro sentido oculto nos seres humanos.

O que está embutido na convivência entre o Bem e o Mal?

Se o mal é exacerbado, surge a necessidade do Bem que se mostra oculto. Apostamos na imagem simbólica dos sonhos.

Para Freud, o sonho mostra o desejo implícito infantil, o que nos leva a pensar na analogia das primeiras especulações da humanidade e na perenidade das organizações arcaicas que formam o psiquismo. Freud, em “Interpretação dos Sonhos” correlaciona cultura com o sonho, através das artes. A partir da consideração de que o sonho nega as relações lógicas, podemos obter comprovação pelos filósofos da Grécia Antiga,na Escola de Atenas onde o mecanismo de condensação mostrou toda a sua potência na satisfação de necessidades, através de monstros, dragões e centauros.

Paul Ricoeur (1970), filósofo francês, acredita que o sonho possui características que facilitam a compreensão psicanalítica da cultura. O sonho possui um sentido que encobre a incoerência, e se vincula ao modus-vivendi de uma sociedade. Nos sonhos, desaparecem aos poucos as barreiras entre o normal e patológico: assim também as sociedades perdem os parâmetros dos valores. A realização alucinatória dos desejos nos sonhos é similar à negação da estrutura superegóica da censura, que funda a moral interna. Nas sociedades tudo fica banalizado e permitido: corrupção, violência, crime organizado, consumismo, objetos e pessoas descartáveis. E a estrutura mais arcaica, primitiva da cultura narcísica se realiza na atualidade - como ocorre nos sonhos. E por associação livre retomamos um posicionamento já colocado algumas vezes: todo grupo em processo terapêutico passa pelo sonho sonhado, pelo sonho vivido, pelo sonho relatado. Como resgatar então a moralidade de uma sociedade que busca ser feliz?

Segundo Rollo May a civilização vive um drama:

(...) “nossa situação é a seguinte: na atual confusão de episódios racionalistas e técnicos perdemos de vista o ser humano. Nos despreocupamos. Agora precisamos voltar humildemente ao simples cuidado (...), ao mito do cuidado – e somente assim podemos resistir ao cinismo e à apatia, que são doenças psicológicas do nosso tempo.” (...) (BOFF: 1999 p.101).

O Método Ramain-Thiers

”Ramain-Thiers, a Sociopsicomotricidade” é o um dos caminhos, entre muitos para formação de valores. Alia arte e corpo. A arte e o corpo são perspectivas vividas como instrumental pelo processo terapêutico. Este processo baseia-se na Psicomotricidade com leitura psicanalítica, e na transversalidade. Quanto à formação de valores éticos vai buscar suas bases na Filosofia.

No momento designado “A Reconstrução da Maternagem” o grupo em terapia mostra-se dependente do terapeuta. Isso corresponde à fase oral psicanalítica. A transversalidade Ramain-Thiers mobiliza o Cuidado. Corporalmente são trabalhados: a sensibilidade corporal, o olhar, a sonorização, o tônus relaxado, e são usadas propostas diferenciadas que tocam a identificação primária. São feitas dramatizações de momentos arcaicos.

Segundo mito do Cuidado, o barro moldado ganha espírito com o sopro de Júpiter; mas foi Terra que lhe deu o corpo, o barro, e assim como mães escolhem nomes para seus filhos. Terra decidiu chamá-lo de Homem, que significa terra fértil.

São trabalhados valores como o despertar do Amor a si e ao próximo, a generosidade, a simplicidade e a compaixão. Nesses valores estão as raízes da tolerância, da boa-fé, do humor e da coragem e fundamentalmente surge a gratidão.

Em “Ética a Nicômacos”, obra escrita por Aristóteles a seu filho, a transmissão de valores vinculados à excelência moral, representam exatamente a entrada da função paterna, em termos filosóficos.

Mostramos assim a importância da arte como fator ilustrativo dessa fase. A entrada da função paterna dá-se na chamada fase anal psicanalítica, onde a criança reconhece o interno e o externo, o produto, o limite. É a fase da criatividade.

Nesse momento grupal, trabalhamos corporalmente o deslocamento, as cadências e ritmos: o que vem de fora como autoridade e controle; o que vem de dentro como condição de equilíbrio, descoberta do esquema corporal e imagem corporal. Na parte diferenciada trabalhamos a arte com tintas, massa de modelar, propostas com muitos detalhes, exigências. Alternamos sempre o interno e o externo. Na leitura da transversalidade, os valores morais são classificados como disposições; isso significa reconhecer o excesso, a falta, o meio termo. A excelência dos valores morais relativos ao dinheiro, como exemplo característico da fase, fica no meio termo entre o dar e o receber. A liberalidade é o justo meio encontrado entre a avareza e a prodigalidade, o oposto da sociedade hoje.

É uma leitura de Ramain-Thiers segundo Aristóteles

Em Ramain-Thiers trabalhamos propostas de corpo simbólico, busca e o encontro do justo meio através do corpo simbólico. A magnificência é uma excelência moral, e o oposto disto é a mesquinhez. Como nesta fase de desenvolvimento a criança descobre os opostos, nada mais oportuno que trabalhar expulsão e contenção em Ramain-Thiers, através da argila, da massa de modelar e das tintas, promover a experiência expulsiva e finalmente oferecer a contenção com a noção de limite.

O Momento Edipiano é o estágio em se promove entrada na cultura. Tempo em que as crianças vão estabelecer a escolha de objeto, e identificar-se com um dos pais. Aí está sendo também trabalhada a sociopatia pela identificação sexual, entrada do Édipo. Surge a interdição do incesto como o Imperativo Categórico de Kant, em uma visão filosófica.

Quanto ao emprego da razão prática, a interdição do incesto é uma noção de moralidade que funda a estrutura superegóica, e sedimenta a noção de universalidade do Complexo de Édipo. A ética do dever de Kant, é o cumprimento do Imperativo, ele diz:

”Age somente segundo a máxima pela qual possas querer que ela se torne lei universal”.

Para colocar em ação tal ditame, precisa-se de mediadores do entendimento, de oportunidades e dos valores morais. Ramain-Thiers oferece propostas corporais de atenção interior, revisão de si na relação com outros.

E o que é senão a entrada da capacidade de pensar, a formação das idéias segundo John Locke e a razão prática do princípio moral kantiano?

Locke, filósofo inglês (1632-!704) buscava explicações para a aprendizagem e desenvolvimento, por ser médico e educador. No “Ensaio sobre o Entendimento Humano” ele se opunha à dicotomia prescrita por Descartes (1596-1650). Para Locke as idéias surgem da experiência, assim como para Ramain-Thiers.

O processo da cognição dependerá de como esse Ser viveu suas primeiras experiências com a mãe, com os objetos, com o mundo circundante. Na visão de Locke, os sentidos e os fenômenos vividos são os pilares em que se funda o conhecimento. Estamos falando de corpo como ponto de partida ao arcabouço emocional e cognitivo.

Na Psicomotricidade diferenciada surgem as propostas específicas à fase, como entrelaces e puzzles. E no momento Ramain-Thiers designado A Busca do Eu Social, nós nos defrontamos com o Ser entrando no mundo social, em pequenos e grandes grupos. Nossas atividades repetem-se na instância corporal. O grupo trabalha a confiança e a entrega, vivências em pequenos e grandes grupos: alongamentos, formas de o corpo experimentar o “crescer” em sociedade

Os pressupostos básicos do filósofo francês Alexis de Tocqueville perpassam todo o trabalho Ramain-Thiers, principalmente nesta fase. Alguns elementos básicos são: igualdade de possibilidades, direito à liberdade de ação dentro de leis que regem o grupo; solidariedade ao sentimento e ao sofrimento do outro e vivência democrática dentro de um espaço terapêutico que corresponde ao social. Estas ações geram felicidade, pois se fica mais consciente de si: solidário à dor do outro, cada um aprende a partilhar e a desenvolver atenção interior, elemento fundamental para a construção de sua Paz interna.

Conclusão:

A “Catedral dos Sonhos” é a construção que cada um faz de si próprio, através dos seus “vitrais coloridos”. E a catedral do Ser também possui esses vitrais, que são afetos e valores.

Cada ser tem sua cor, seu brilho, e todos nos grupos Ramain-Thiers partilham dentro do grupo, dos sonhos e esperanças de todos.

As pessoas vão se configurando em uma atmosfera de compreensão e de amor: Ramain-Thiers não exclui, o trabalho respeita o certo e o errado, porém sempre com a intenção de promover a mudança de atitude de cada um para melhor, para embelezar a sua própria a vida.

Referências:

ARENDT, Hanna - A Condição Humana.Rio de Janeiro :Forense Universitário ,2001
ARISTOTELES - Ética e Nicômacos.Tradução .de Mario da Kury, Brasília:
Universidade de Brasília, 1985
BATISTA V. - Difíceis ganhos fáceis-Drogas e Juventude Pobre no Rio de
Janeiro. Rio de Janeiro: Ed Renan, 2003
BAUDRILLARD.J.- A Sociedade de Consumo. Tradução Arthur Mourão Lisboa:
70Lila: 1970
BIRMAN ,J. - Mal Estar da Atualidade - A Psicanálise e as formas de
Subjetivação. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000
Boff.L - Saber Cuidar, Petrópolis: Vozes,1999
Comte-Sponville A - Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, S.Paulo: Martins
Fontes 2002
COSTA. Freire J - O Vestígio e a Aura:Corpo e Consumismo moral do Espetáculo,
Rio de Janeiro
DEBORD G. - La Sociedad del Espetaculo. Buenos Aires, La Marca,1995
FREUD - A Interpretação dos Sonhos in obras Completas, vol VI, S.Paulo: Stander
Brasileira
HERRERO, Javier - Religião e História em Kant, S.Paulo: Loyola,1991
KEHL.M.Rita - Sobre Ética e Psicanálise, S.Paulo: Companhia das Letras, 2002
LOCKE J. - Ensaio Acerca do entendimento Humano In coleção - Os Pensadores,
S.Paulo: Abril Cultural,1973
LOWEN A - Narcisismo S.Paulo: Cultrix,1983
MEZAN Renato - Freud Pensador da Cultura – S.Paulo: Brasiliense,1985
THIERS E. - Compartilhar em Terapia – S.Paulo: Casa do Psicólogo,1998
THIERS S. - Sociopsicomotricidade Ramain-Thiers. S.Paulo: Casa do Psicólogo,
1998
THIERS S - Ética Pública.Londrina: Edições CEFIL, 2003

NOTA:

O presente artigo está publicado no livro "CORPO E AFETO - reflexões em Ramain-Thiers", organizado por Ana Cristina Geraldi e Solange Thiers, editado pela Wak Editora em 2009.

Link para aquisição do livro – EditoraWAK :
http://www.leandrolivros.store/produto/19443/corpo-e-afeto

  

  

  

  

  

  

Outros livros de psicomotricidade:
http://www.leandrolivros.store/departamento/8343/05/psicomotricidade

Outras publicações produzidas pela autora e outros profissionais de psicomotricidade podem ser encontradas em:
http://www.ramain-thiers-sociopsicomotricidade.com/vitrais59/editorial.htm

  

THIERS Solange. - Sociopsicomotricidade Ramain-Thiers. S.Paulo: Casa do
Psicólogo,1998.

  

  

  

  

  

  

  

  

  

THIERS, Solange - Ética Pública.Londrina: Edições CEFIL, 2003

1 Resposta

  1. Brilhante estudo! Explicações claras e objetivas. Todos os exucadores deveriam ter esse material.

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