O Essencial É Invisível Aos Olhos: A Relação Com O Bebê Nos Encontros De Psicomotricidade

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O ESSENCIAL É INVISÍVEL AOS OLHOS: A RELAÇÃO COM O BEBÊ NOS ENCONTROS DE PSICOMOTRICIDADE

Autora:

Amanda Machado
Formação em TransPsicomotricidade Educacional e Clínica
amandamachadoped@hotmail.com

Palavras chaves: Bebês, TransPsicomotricidade, acompanhar, livre expressão

Introdução:

Em meio a tantas questões existenciais, o pequeno príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, se reporta a raposa e lhe diz uma das frases mais simples e belas do mundo “o essencial é invisível aos olhos!”. O que não podia ser visto? O que nos é essencial a ponto de fazer parte de nossa constituição psíquica? É dessa delicadeza que quero falar, pensar e, se possível, fazer com cada um possa refletir sobre suas ações e, como por ironia, com seu olhar.

Resumo:

No presente artigo, trago reflexões sobre a importância da relação sensível do adulto com o bebê, convidando o leitor a pensar sobre sua postura diante da criança: o toque, a voz, o olhar e o material selecionado são alguns temas de articulação para compreender o momento de encontro com bebê, tempo esse que é precioso e deve acontecer de modo a não invadir psiquicamente seu espaço, uma vez que “é imprescindível para o surgimento de um futuro cidadão, inserido e feliz, um acompanhamento do adulto, acompanhamento atento e não sufocante, em que as descobertas possam ser realizadas com esforço próprio.” COSTA (2016).

Todo trabalho apresenta uma leitura na perspectiva da Formação em TransPsicomotricidade, promovendo a conexão do sujeito com sua potência a partir de uma relação afetiva e respeitosa por parte do adulto que o acompanha. Um dos canais possíveis dessa relação é o Brincar, em seu potencial interativo e de vinculação.
Sem esgotar as possibilidades de reflexão, integro os temas para conhecer a parte e o todo, de forma a contextualizar as descobertas e fazer com que o leitor se sinta impulsionado a querer saber e descobrir mais.

Objetivo:

Pretende-se abordar a relação do adulto com o bebê entendendo este como um ser potente em suas linguagens. As diversas formas de comunicação e compreensão são peças chaves para a construção de uma escuta sensível, onde a valorização da cultura da infância possa acontecer.

Desenvolvimento:

Trabalhar com bebês exige do adulto um cuidado consigo mesmo e seus desejos, exige dele (adulto) delicadeza perceptiva e o que considero como principal, seu olhar. Mas para isso, é preciso internalizar essa atitude e apreender de uma vez por todas que toda relação necessita da troca de olhares para que o "invisível" possa acontecer, uma vez que entre os adultos " há muitas pessoas de visão perfeita que nada veem" Alves (2011) e essa tarefa precisa ser apreendida, para que na relação com o bebê possa existir uma bela sintonia.

Para o bebê, essa conexão via olhar é o primeiro canal de comunicação que irá existir a partir do nascimento. Ele olha no olho do adulto, olha sua boca, seus olhos e, quando amamentado no peito, o seio. Tudo que ele vê é muito bem explorado com o olhar para depois ser tocado, daí a importância de sustentar esse encontro e permitir que o outro sinta que você quer lhe responder, rompendo assim o “automatismo, estabelecendo-se comunicação e contato" Guimarães (2011).

Falo do olhar, mas também falo do corpo como um todo, o fato é que com o olhar estabelecemos uma comunicação que não tem " filtro", não podemos negar ou esconder, assim como fazemos entre nós adultos. E saber ver (Mariotti) é saber ver o outro, único ponto de partida humano para começar a enxergar o mundo.

Outro ponto que destaco nessa reflexão no trabalho com os bebês é a vocalização do adulto, que busca estabelecer um "diálogo" com eles. Sabemos do profundo respeito que o tom e a forma melódica que empregamos na relação são importantes nesse momento de se estar com bebês. Sendo assim, uma vez que a nossa voz os toca, devemos empregar nela todo afeto da relação que pretendemos estabelecer, compreendendo que a linguagem intersubjetiva se faz presente a cada instante.

Porém, também é preciso pensar sobre outra voz ... aquela que aterroriza, causa angustia e desampara o bebê em suas necessidades. Se nas composições de clássicas é possível sentir tristeza ou alegria em uma mesma sinfonia, imaginem eles? Será que nossa comunicação fica clara durante o atendimento às crianças?

Os recebemos de forma acolhedora e damos a legítima importância aos ruídos que expressam desconfortos? Atender o bebê é dizer que ele existe para você, um ato de respeito que aos poucos vai sendo decodificado e significado. Desampará-lo nesse sentido seria o mesmo que fragmentá-lo, deixando o bebê em um lugar de vazio onde a busca pelo outro não se faria presente e assim, impossibilitaria o estreitamento da relação.

Diante de toda minha convivência respeitosa com bebês, pude perceber que estar com eles é vivenciar e proporcionar experiências singulares, é favorecer propostas na contra mão das milhares de informações as quais eles são expostos ao longo de seu dia: mídias, canções, brincadeiras de estimulação...

A partir da construção do meu olhar pela ótica TransPsicomotora com bebês, pude perceber e efetivar um trabalho onde o espaço é destinado aos afazeres e interesses próprios de cada faixa etária, o mais simples é o melhor, compreendendo que eles precisam é de espaço criativo para realizarem suas próprias experiências e pesquisas com os materiais, como nos diz Tardos E Szanto- Feder (2011):
"Quando mostramos um respeito profundo por aquilo que a criança faz, por aquilo por que ela se interessa- mais por ela mesma que por seus atos-, todas as nossas ações se tornam impregnadas de um conteúdo que enriquece a personalidade: desenvolve a segurança afetiva, a consciência e a autoestima da criança."

Assim, antes de pensar o espaço para o encontro com eles, se faz necessário pensar na postura que apresentamos diante da criança. Como organizamos nosso corpo para estar junto deles? Como compor o cenário desse encontro? A criança, desejosa por explorar o mundo, busca nosso olhar, a voz e, conforme se sente confiante e segura, investe sobre nosso corpo... Nesse momento, é preciso estar suficientemente disponível para essa entrega.

As posturas de entrada e aproximação do bebê são os primeiros passos para estabelecer essa comunicação pela primeira vez, pois eles sentem nossas vibrações emocionais - e são muito bons-, como se "analisassem" nossa interferência no espaço e se de fato, "merecemos" estar ali envolvidos com eles.

Por vezes podemos até nos deparar com bebês que se recusam a olhar para nós, a aceitar nossa presença e essa postura deve ser respeitada pois, a cima de tudo, o clímax da sala é determinada pelas respostas que os bebês nos dão.

O toque, acontece de forma simbólica, pela voz que marca sua presença no espaço ao falar o nome de cada bebê, o olhar que encontra com o dele e por fim, o material que pode te ligar àquele corpo, na busca estabelecer uma aproximação com o bebê sem invadir seu contorno.

Lapierre (2002) já dizia " só devemos tocar o corpo de um bebê depois de sermos tocado por ele", e esse toque pode ser experimentado de forma clara ou, quando estamos atentos, percebida pelo encostar do dedos em nossa pele. O importante é sempre estar atento aos sinais. A partir daí, um jogo relacional vai acontecer e os dois entrarão em sintonia para que possam brincar juntos.

Considerações Finais: As reflexões abordadas ao longo da formação em TransPsicomotricidade e todo trabalho pessoal realizado, possibilitam uma abertura de consciência para enxegar ações e angustias que surgem na relação com o bebê.

Ao tempo que esse trabalho e supervisão acontecem, encontramos caminhos que nos aproximam do bebês e um deles, é o lugar da espera. Saber esperar, é uma das tarefas mais difíceis que precisamos urgentemente aprender, para que a criança possa sentir prazer em ser o que deseja, assim como respeitada em seu próprio tempo. Nessa perspectiva de escuta ao tempo da criança, temos observado ganhos siguinificativos na constituição de sua unidade psicomotora.

Conclusão:

Ao compreendermos o outro (bebê) como sujeito participante desse processo de aprendizagem, temos a capacidade de fazer diferente, ser diferente e, acima de tudo, temos a missão de nos tornarmos mais humanos.

Bibliografia:

ALVES, Rubem. Educação dos sentidos e mais...Campina, SP: Verus editora, 2011.
BUSNEL, Marie-Claire. A linguagem dos bebês: Sabemos escutá-los?. São Paulo: Ed. Escuta, 1997
COSTA, Eduardo. As relações psicomotoras do bebê. Revista de pediatria moderna. Ultimo acesso em 08/05/2016 em http://www.moreirajr.com.br/revistas.asp?fase=r003&id_materia=3347
COSTA, Eduardo e LOVISARO, Martha. Tranpsicomotricidade. Psicomotricidade com base no pensamento complexo. Rj: Ed.WAK, 2013.
DOWBOR, Fátima Freire. Quem educa marca o corpo do outro. São Paulo: Ed. Cortez, 2008.
FALK. Judit (organizadora). Educar os três primeiros anos: a experiência de Lóczy. São Paulo: Ed. Junqueira&Marin, 2011.
GUIMARÃES, Daniela. Relações entre bebês e adultos na creche- o cuidado como ética. São Paulo: Ed Cortez, 2011.
LAPIERRE e LAPIERRE, André e Anne. O adulto diante da criança de 0 a 3 anos: psicomotricidade relacional e formação da personalidade. Curitiba: Ed. da UFPR: Ciar, 2002.
MARIOTTI, Humberto. Os cinco saberes necessários ao pensamento complexo. Em http://www.comitepaz.org.br/download/OS%20CINCO%20SABERES%20DO%20PENSAMENTO%20COMPLEXO.pdf último acesso em 06/05/2016.
MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. Brasília, DF: Unesco, 2003.
SAINT-EXUPÉRY, Antonie de. O pequeno príncipe. Rio de janeiro: Ed. Pocketouro.
SANTOS, Akiko. O que é Transdiciplinaridade? Último acesso em 09/05/2016 em http://www.ufrrj.br/leptrans/arquivos/O_QUE_e_TRANSDISCIPLINARIDADE.pdf
STERN, Daniel. O mundo interpessoal do bebê. São Paulo: Ed Artes médicas, 1992

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